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sexta-feira, 11 de novembro de 2011

POAemMovimento e Moacyr Scliar



Conheci os romances de Moacyr Scliar na minha adolescência. Na época não sabia muito bem o significado da palavra “surrealismo”. Mas, aquele jeito de contar histórias misturando imagens reais com acontecimentos fantásticos tinha muito a ver comigo, de forma que não foi preciso muito para virar um leitor daquele escritor.

O primeiro livro que li foi “Os Deuses de Raquel”, cujo narrador era o “olho que tudo sabe, que tudo vê”. Perdia o sono pensando naquele misterioso contador da história. O segundo, O Exército de um homem Só, me cativou por ser uma história aparentemente simples na sua essência. No entanto, o personagem principal, Mayer Guinzburg, trazia uma carga dramática muito densa e o desejo dele por um mundo justo me contagiava. Era impossível não torcer por aquele louco revolucionário.


Outra obra de Moacyr marcante para mim foi o “Carnaval dos Animais”. Lembro do conto em que o personagem ia até a BR 290, a nossa Free Way, e lá entrava num estranho nevoeiro, uma espécie de portal que ia dar em Nova York. Passava a noite na Big Aple, retornando a Porto Alegre na madrugada pelo mesmo nevoeiro. O personagem achava aquilo tudo muito estranho, mas não contava à ninguém com medo que o encanto acabasse.

Moacyr era um escritor polivalente, no mesmo instante que nos envolvia com uma inventiva narratória; nas suas histórias descrevia os costumes, hábitos e personagens do Bairro Bom Fim, bairro que concentrou os imigrantes judeus em Porto Alegre, onde morou a vida toda. Também, professoralmente levava o leitor a mergulhar no universo da cultura Judaica de forma absolutamente natural. Assim, palavras como “goy”, “torah”, “bar mitzvá”, “shabat” passaram a fazer parte do meu vocabulário.

Não o conheci pessoalmente, apenas através da sua obra literária. Alguns amigos privaram da sua amizade. O companheiro Sylvio Nogueira, por exemplo, foi colega dele no Colégio do Rosário, Zoravia Bettiol o tinha como um caríssimo amigo. Meu irmão, de quem tomava os livros de Scliar emprestados para ler, durante anos o encontrou no elevador, quando Scliar trabalhava na Secretaria da Saúde.



Palavras de Moacyr Scliar sobre seu método literário:

"Acredito, sim, em inspiração, não como uma coisa que vem de fora, que "baixa" no escritor, mas simplesmente como o resultado de uma peculiar introspecção que permite ao escritor acessar histórias que já se encontram em embrião no seu próprio inconsciente e que costumam aparecer sob outras formas — o sonho, por exemplo. Mas só inspiração não é suficiente".

Quando emprestamos o personagem “Morte de Plástico”, criado por mim e Willis Carmo para o vídeo, que circula no youtube, “Não ao Pontal” de Carlos Gerbase, ficamos orgulhosos que o trabalho iniciava com uma citação de Luis Fernando Veríssimo e terminava com outra dele, Moacyr Scliar. Embora, não haja referência nossa nos créditos do vídeo de Gerbase, os 40 segundos que “Morte de Plástico” aparece no citado vídeo fizeram com que nos tornássemos parceiros dos escritores, cineasta e de todos os participantes daquela obra coletiva.

Transcrição in verbis da frase de Moacyr Scliar para o vídeo “Não ao Pontal”:

“Nossa cidade sempre foi um reduto da consciência ecológica no Brasil, e é importante mantermos a fidelidade a uma luta da qual depende o futuro de nossa população”.

Levar Capitão Birobdjan, personagem central da obra “Exército de Um Homem Só”, até a 57ª Feira do Livro de Porto Alegre, foi um exercício poético cujo resultado nos causou uma imensa satisfação. Trouxemos o personagem do mundo fantástico para a realidade e ele saiu-se melhor do que poderia supor a nossa a nossa vã filosofia.



Os mais de 67 livros publicados por Moacy Scliar dividem-se em vários gêneros literários tais como: o conto, romance, ficção infanto-juvenil, crônica e ensaio.

ROMANCES DO AUTOR

A guerra no Bom Fim. Rio, Expressão e Cultura, 1972. Porto Alegre, L&PM.

O exército de um homem só. Rio, Expressão e Cultura, 1973. Porto Alegre, L&PM.
Os deuses de Raquel. Rio, Expressão e Cultura, 1975. Porto Alegre, L&PM.

O ciclo das águas. Porto Alegre, Globo, 1975; Porto Alegre, L&PM, 1996.

Mês de cães danados. Porto Alegre, L&PM, 1977.

Doutor Miragem. Porto Alegre, L&PM, 1979.
Os voluntários. Porto Alegre, L&PM, 1979.

O centauro no jardim. Rio, Nova Fronteira, 1980. Porto Alegre, L&PM. (Prêmio APCA).

Max e os felinos. Porto Alegre, L&PM, 1981.
A estranha nação de Rafael Mendes. Porto Alegre, L&PM, 1983.

Cenas da vida minúscula. Porto Alegre, L&PM, 1991.

Sonhos tropicais. São Paulo, Companhia das Letras, 1992. (Prêmio Jabuti).

A majestade do Xingu. São Paulo, Companhia das Letras, 1997.

A mulher que escreveu a Bíblia. São Paulo, Companhia das Letras, 1999.

Os leopardos de Kafka. São Paulo, Companhia das Letras, 2000.

Mistérios de Porto Alegre. Artes e Ofícios, 2004.

Na Noite do Ventre, o Diamante. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 2005.

Os vendilhões do templo. 2006.

Manual da paixão solitária. Cia. das Letras. 2008. (Prêmio Jabuti).

Eu vos abraço, milhões. 2010

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